5/10/2007

Eu que sempre fui tão insconstante...

À espera


Sentei-me na praça a espera de alguém. Detesto ter que esperar por isso meus atrasos são justificáveis, pelo menos para mim mesma. Na falta do que fazer e pensar fiquei reparando na menina de cachinhos que brincava na caixa de areia. Que será dessa menina daqui uns anos, pensei. Quem serão seus pais?
Talvez o casal apaixonado sentado no banco em frente, tão preocupados com seus próprios desejos, tão ocupados com seus anseios e ciúmes, inseguros do próprio amor. Eles certamente não reparavam na fragilidade daquela menina, na imensa vontade dela de ser protegida e amada incondicionalmente. Não reparavam nos seus castelos que desmoronavam enquanto ela suplicava atenção com os olhos pretos de cílios tão compridos.
Ou talvez fosse a senhora mais velha, com os óculos dispostos na ponta do nariz, ar de formalidade e livro cuidadosamente apoiado sobre os joelhos. Os joelhos cobertos por uma grossa saia xadrez, tão fora da moda atual. A moda exigia coisas demais, eu pensei. A tal senhora poderia ser a mãe da menininha, ou talvez até avó, hoje em dia as mulheres estão tendo seus filhos cada vez mais cedo. Mas será? Será que aquela senhora não reparava na delicadeza daquelas mãos tão sujas de areia? Será que ela não se sensibilizava com a risada de satisfação a cada nova obra construída? Não se enternecia com aqueles cachinhos caindo sobre os olhos?
E a menina tinha o extremo cuidado de tirar o cabelo com um leve toque dos seus dedinhos, na primeira vez havia enchido os olhos de areia e parece ter aprendido sozinha, que todo cuidado naquela ação era necessário para não se ferir de novo.
Talvez a mãe fosse aquela jovem mascando chiclete que falava ao orelhão. A jovem que ria alto e que não sentia vergonha de estar sendo observada pelos ouvintes na fila esperando que sua interminável conversa acabasse. A jovem que levava ao pé da letra a moda atual...definitivamente ela gostava de mostrar as pernas! Mas ela não conseguia deixar de pensar somente em si, não poderia ser mãe de uma criança tão meiga, tão envolvida numa brincadeira de criar. Se ela fosse mãe da menininha certamente teria reparado as bochechas vermelhas do calor, os pezinhos espichados para fora da caixa, como quem quer ser resgatada. Certamente ela teria desligado o telefone e corrido ao seu encontro, oferecendo a ela um enorme sorvete como recompensa ao capricho com que havia construído seus castelos.
E se eu fosse a mãe da menina dos cachinhos? Será que assim como as outras pessoas eu não me comoveria aos seus encantos? Será que ela se tornaria comum aos meus olhos? Estava tão encantada com aquela criança que não percebi que também estava sendo observada. Ao encontrar meus olhos com outros olhos que me analisavam senti-me corar.
Logo surgiu uma mulher, dessas que trabalham pelo menos 8 horas diárias e bancam sua vida com dureza e honestidade. Calça jeans surrada e confortável, camiseta branca, chinelos de borracha. Os cabelos presos num rabo-de-cavalo denunciavam alguns cachos tentando desprender-se.
Ela abaixou-se, beijou a fronte da menininha, prendeu o cachinho que insistia cair com um pequeno grampo, limpou suas mãos e com palmadas suaves bateu a areia grudada na roupa. Sentou-se com ela na beirada da caixa e dedicou-se às suas pequenas descobertas na areia. Riu com ela das minhocas que surgiam, vibrou com ela, sorriu com ela, viveu com ela aquele momento mágico. Entre túneis e bichinhos feitos com fôrma de plástico as duas se entregaram aos prazeres da simplicidade.
Pensei, então, que quando o amor existe de verdade e há entrega e cumplicidade, tudo é possível. Tudo é renovado. Tudo é justificável. É preciso fazer com que ele aprenda sozinho algumas defesas, mas é preciso também resgatá-lo vez em quando. Mimar o amor. Afagá-lo dentro de si. Observá-lo de longe e deixa-lo florescer.
Nesse meio tempo quem eu estava esperando aconchegou-se ao meu lado no banco. As bochechas vermelhas da vinda pedalando, a mochila azul, o boné. Nas mãos uma flor. Mais uma! – eu pensei. Ele me trazia flores em todos os encontros. Flores roubadas, flores do próprio jardim, flores dos canteiros públicos. Beijou-me o rosto, e me mimou, e me afagou, e me provou, mais uma vez, que amar é simples.

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